segunda-feira, 3 de agosto de 2020

MULHERES NA ESTRADA (PARTE 1): A ESTRADA DA VIDA (ITÁLIA, 1954, F. FELINI)


Crítica de Cinema

A estrada não costuma ser muito generosa com quem embarca nela, principalmente com as mulheres. Ao analisar determinadas narrativas fílmicas concebidas em épocas e países diferentes, e de diretores e estilos completamente distintos, como Curva do destino (EUA, 1945, E. Ulmer), A estrada da vida (Itália, 1954, F. Felini), Sem teto nem lei (França, 1985, Agnes Varda) pode-se constatar, em relação à trajetória e destino das personagens femininas pelo menos duas características em comum (apesar dos diferentes perfis físico e psicológico delas): uma iminente vulnerabilidade diante dos riscos que a estrada pode oferecer (muitas vezes oriundas da opressão e violência masculina) e o destino trágico diante da morte.

O primeiro perfil feminino a ser analisado, não seguindo uma ordem cronológica, é o de Gelsomina, de A estrada da vida. Este filme de Fellini insere-se no movimento neorrealista, que retratou a Itália do pós-guerra, decadente e pobre, cuja estética também está presente em outros trabalhos do diretor, como Mulheres e luzes (1950), Abismo de um sonho (1952), Os boas vidas (1953) e Noites de Cabíria (1957). A construção singular da personagem, que apresenta, ao mesmo tempo, um sorriso e uma tristeza misteriosos, aliados à ingenuidade e sinceridade marcantes e completados pela brilhante interpretação da atriz Giulietta Masina, fazem dela uma importante representante feminina da cinematografia mundial. Na história, Gelsomina, oriunda de uma família constituída apenas por mulheres que, diante da ausência masculina, acaba passando por dificuldades financeiras, é vendida pela mãe ao artista circense Zampano. 

Sem escolha, ela o acompanha, auxiliando-o nos serviços domésticos e nas apresentações e, posteriormente, apresenta-se também como palhaça. Entretanto, ela é constantemente maltratada por Zampano, homem bruto, que trata mulher como objeto. Gelsomina também não se encaixava no padrão costumeiramente esperado em uma mulher: além da falta de atrativos físicos, não sabia lavar, cozinhar, e ainda aparentava apresentar algum tipo de retardamento mental, perfil este que contrastava com o de sua irmã, Rosa, que também foi parceira de Zampano, mas que morreu, não se sabe exatamente por qual motivo.

Ofuscada pelas prometidas maravilhas de uma vida de cidade em cidade, deslumbrada pela ideia de se sentir capaz, útil, de demonstrar seu talento e ser preenchida por aplausos, Gelsomina depara-se com uma realidade de melancolia e submissão. Diante disso, pensou em fugir diversas vezes, mas a paixão que nutria por Zampano e o desejo de um dia ser tratada por ele como sua esposa, ser amada e respeitada, a impediam. Pelo contrário, ela não era respeitada, nem amada, muito menos livre. Ela só obteve um pouco mais de atenção de Zampano quando apareceu o personagem Bobo, que a deixou encantada e despertou ciúmes no “arrebentador de correntes”. Após a morte de Bobo, depois de uma briga com Zampano, Gelsomina sentiu-se ainda mais triste e desequilibrada, o que levou Zampano a abandoná-la, morrendo anos depois.













Lecco França é professor universitário, pesquisador, curador e crítico de cinema. Doutor em Letras pelo Programa de Pós-graduação em Literatura e Cultura da Universidade Federal da Bahia.

MULHERES NA ESTRADA (PARTE 2): CURVA DO DESTINO (1945)


Crítica de Cinema

Investigando a história do cinema clássico mundial percebe-se que em sua trajetória ele apostou predominantemente em enredos cujo ponto de vista era masculino, de tal modo que eram os protagonistas homens que conduziam a trama. A imagem da mulher “construída” pelo cinema, isto é, as imagens dominantes da mulher nos filmes também eram construídas pelo e para o olhar masculino. No período da ascensão inicial do cinema norte-americano (compreendido entre 1908 e 1918), a figura feminina apresentada era, de certo modo, limitada. Habitualmente, encontrava-se a jovem criança, a mãe, esposa e dona de casa, ou a mulher perseguida, que seria resgatada pelo herói. 

No período pós-Primeira Grande Guerra, surgiu uma nova perspectiva do papel da mulher, muito ligado ao erotismo. Nos anos 1920, o papel da mulher deixou de ser secundário, como até aí acontecia, e apareceu como figura principal de muitas obras. A partir da década de 1950, ampliou-se ainda mais representação da figura feminina nos mais diversos contextos e com variadas funções (sociais). O período da história, no contexto de guerra, em que mulheres foram encorajadas a cumprir seu “dever patriótico”, prestando serviço nas fábricas de armamentos, consequentemente tornando-se independentes econômica e sexualmente, bem como o receio de sua concorrência no mercado do trabalho, causou uma desconfiança dos homens em relação a elas, podem ter sido responsáveis pela misoginia percebida no tratamento das personagens femininas. Exemplo claro disso encontra-se o filme Curva do Destino (Detour, EUA, 1945), do diretor austríaco Edgar G. Ulmer, através da personagem Vera. Vulgar e autoritária, com traços fisionômicos que, de certo ângulo, lembram os de um abutre, ávido e feroz, ela pode ser considerada como a mulher fatal mais desprezível que já apareceu na tela nos últimos tempos.

A mulher sexualmente ativa (por ser dona de seu desejo), misteriosa (por ser pouco previsível) e independente (por não ter vínculos matrimoniais) corresponde à ideia da femme fatale. Essa mulher é adjetivada como fatal porque é uma ameaça à instituição da família e representa uma tentação que pode desvirtuar o homem, levando-o à ruína. Esse tipo de personagem foi preponderante no Cinema Noir[2], a partir da década de 1940, nos Estados Unidos, e de certo modo persiste no imaginário contemporâneo um mal disfarçado incômodo com mulheres que carregam em si esses atributos.

Com larga produção entre as décadas de 1940 e 1950, o Cinema Noir ficou conhecido por tratar a sociedade de forma niilista e crítica e, principalmente, pela fotografia em alto contraste entre o preto e branco, herança do expressionismo alemão. Utilizando a temática policial, em ambientes urbanos, o gênero normalmente combina personagens moralmente ambíguos, mulheres sedutoras, homens violentos ou corruptos. A personagem femme fatale ao se interpor na trajetória do herói, funciona como um contraponto, cujo efeito é moralizante, uma vez que no final da história o herói/homem é invariavelmente absolvido e a mulher “fatal” é condenada ao descarte, à loucura, à solidão ou à morte, entre outras punições possíveis, como acontece em Curva do destino. 

O personagem Al Roberts (interpretado por Tom Neal), músico de jazz maltrapilho que viaja pelos Estados Unidos de carona, viu sua vida se transformar num inferno depois que um motorista morre na sua frente, e ele resolve assumir a identidade do morto. Como na estrada, nem tudo sai como o esperado, para Al, além do encontro com Charles Haskell Jr., o encontro com Vera quando, num posto de gasolina, dá-lhe carona, também provoca uma reviravolta completa na sua vida, levando-o a um estado degradante, que fez com que ele cometesse uma terrível besteira.

A trama é original e intrigante, cheia de surpresas, e deixa o espectador mais do que curioso, ansioso, esperando para onde o próximo lance do enredo irá conduzi-lo. Tudo isso culmina com um final extremamente inteligente: em um motel de Los Angeles, Al mata Vera involuntariamente, estrangulando-a ao puxar o cordão do telefone que ela havia enrolado em torno do pescoço. O jeito autoritário e pragmático da personagem o tempo inteiro não permitiu a empatia do público.




Lecco França é professor universitário, pesquisador, curador e crítico de cinema. Doutor em Letras pelo Programa de Pós-graduação em Literatura e Cultura da Universidade Federal da Bahia.
[2] Segundo Martin Scorsese, no livro Uma viagem pessoal pelo cinema americano, a expressão film noir foi cunhada pelos críticos franceses em 1946, quando descobriram as produções de Hollywood que haviam perdido durante a ocupação alemã. Não se tratava de um gênero específico, como o filme de gângster, mas sim de um estado de espírito, cuja melhor definição está na seguinte fala extraída do filme de Ulmer: “Para qualquer lado que você vá, o destino estica a perna para lhe passar uma rasteira”.


MULHERES NA ESTRADA (PARTE 3): SEM TETO NEM LEI (1985)

Crítica de Cinema

A imagem da mulher no cinema francês teve a grande contribuição de Agnés Varda, uma das fundadoras do Nouvelle Vague[2]. Em Sem teto nem lei, a cineasta resgata um pouco do passado desse movimento estético e político e cria um filme rebelde sobre uma mulher rebelde. No filme, uma jovem andarilha Mona (Sandrine Bonnaire) morre congelada no frio do inverno francês. Sua história e principalmente seus últimos dias são contados através das pessoas que cruzaram o seu caminho. Muito além de simples feminismo, Varda levanta uma profunda reflexão sobre a solidão e a liberdade, trazendo uma personagem não convencional fugindo de si mesma. Também inova trazendo uma narrativa não linear e uma trama fragmentada e subjetiva. O passado da anônima morta é desvendado por meio dos testemunhos de quem a conheceu, cada um deles acrescentando ao relato suas impressões e sentimentos que por vezes se contradizem.

O filme é dedicado a Natalie Sarraut, conhecida pela sua passagem pelo “Novo romance francês” e escritora dos fluxos de consciência e por uma profundidade existencial da construção dos seus personagens (características que aparecem no filme de Varda). Como já dito, o filme tem uma estrutura narrativa interessante: começa com a personagem já morta e sem sabermos nada das razões de seu fim. Somente aos poucos, por informações daqueles que conviveram algum tempo com ela, fica-se sabendo o que aconteceu. 

O filme é claramente de ficção, mas nos momentos em que as pessoas falam do seu encontro com a garota de rua, a câmara nos passa a ideia de que estamos diante de um documentário onde as pessoas olham para a câmara, narram como se estivessem vendo o acontecido e logo após, aparece a cena um pouco diferente do que foi contada, geralmente de maior extensão do que a história contada. Uma marca permanente em Varda desde os tempos da Nouvelle Vague é a opção por narrar situações cotidianas e aparentemente banais de uma vida. Sabemos aos poucos a vida errante de Mona, a protagonista. Sabemos um pouco de uma moradora de rua: sua solidão, sexo por dinheiro, violência, bebida, comida ou a falta dela.

O filme não se pretende ser de tese sociológica, mas não renuncia em tudo a denúncia de uma França cruel com seus imigrantes (antecipador para a situação em que a Europa vive hoje na temática da migração) e trabalhadores em geral e do desespero do abandono. Diante de todo um “realismo cinematográfico” que lhe é próprio, temos o “frescor juvenil e rebelde” da Nouvelle Vague das origens. A personagem nos transmite uma situação de liberdade dos vagueadores e conquistadores de submundos só vistos nas obras de Kerouac ou Guinsberg. Há algo no filme que nos diz que liberdade é conquista, é projeto, é construção cotidiana individual e coletiva e, por vezes, fatal.

Assim, o perfil feminino construído no filme é daquela mulher que adota comportamentos que comumente não são para ela. Há diversos momentos em que isso é mostrado claramente nos diálogos. Mona não é a mulher mais simpática que você já viu num filme, pelo contrário. Mas ela possui um magnetismo que não permite que você desvie o olhar dela. Tudo que ela faz parece apontar em direção a sua morte, se alimentando e se higienizando precariamente, passando frio, se entupindo de álcool e fumando um cigarro atrás do outro. Ela não se ajusta ao meio nem tenta agradar ninguém; Mona é a personificação de uma liberdade nociva, na qual a falta de identidade e objetivos, aliada ao medo de se deixar envolver com outras pessoas, conduz a ela a um estado de autodestruição. Sozinha ela mergulha num estado de decadência humana sem muitos paralelos no cinema.

O cinema, ao longo da sua história, tem tentado contar histórias de mulheres que de uma maneira ou de outra marcaram o imaginário social, positiva ou negativamente. Nessa estrada, como em quase todos os filmes que seguem uma estrada, personagens aparecem e somem, pegam carona e descem. Gelsomina é uma delas, que sobe na carroceria de Zampano no início do filme, depois desce e some. O mesmo caminho é seguido por Vera e Mona. Será que a morte de todas as personagens representa o destino ou funciona como simples punição por ser mulher?




Lecco França é professor universitário, pesquisador, curador e crítico de cinema. Doutor em Letras pelo Programa de Pós-graduação em Literatura e Cultura da Universidade Federal da Bahia.
[2] Estilo de cinema francês dos anos 1960 que propunha um cinema mais autoral - feito pelo diretor - e caracterizado pela juventude de seus cineastas, pelos padrões diferentes dos padrões comerciais e suas temáticas “rebeldes”. As ruas, os marginais, comportamento libertário em termos de costumes conservadores, irresponsabilidade juvenil, paixão pela vida, relações trágicas, tudo isto marcou o cinema da “nova onda” francesa e influenciou toda uma geração de cineastas pelo mundo a fora.

A MODERN TAKE ON CLASSIC STORIES OF FATHERHOOD (FESTIVAL DO RIO 2016)




At first, Son of Joseph (Le Fils de Joseph, 2016), directed by Eugène Green appeared to be yet another story about a boy in search of his father. In the first scenes, for example, Vincent (played by Victor Ezenfis) comes across a café called Father and Son. At times, the boy plies his mother with questions about who his father might be.

But the film aims to explore different options for fatherhood. We have Vincent’s mother, Marie (Natacha Régnier), who is raising her son on her own; Oscar (Mathieu Amalric), an editor who is assumed to be Vincent’s biological father but who is not close with his other children; Joseph (Fabrizion Rongione), Oscar’s brother, who unexpectedly takes the boy in.

The plot is essentially an interpretation of the bible stories of the sacrifice faced by Isaac, son of Abraham (depicted in the Caravaggio painting, a reproduction of which hangs on the wall of Vincent’s room), and of Joseph, who took responsibility for raising Mary’s son.

The characters Vincent, Oscar and Joseph each represent a different perspective on fatherhood. For Vincent, a father is the one who will save him from the “strange” he is going through. Oscar denies any possibility of being a father, despite his three legitimate children. It is thanks to Joseph that Vincent, a typical rebellious teenager who behaves aggressively and speaks rashly, especially with his mother, gradually becomes calmer and more extroverted.

At several points in the film the characters look straight into the camera in an attempt to establish a closer relationship with the audience. The dialogue is frequently dry and terse, and the limited interaction between characters creates a sense of physical and emotional distance. There are many shots in which the camera spends several seconds focused on spaces and objects, in near total silence. These are the strategies used in developing the narrative make give Son of Joseph more original than others that explore the same topic.




Lecco França é professor universitário, pesquisador, curador e crítico de cinema. Doutor em Letras pelo Programa de Pós-graduação em Literatura e Cultura da Universidade Federal da Bahia.

O FILHO DE JOSEPH: UMA RELEITURA MODERNA DAS CLÁSSICAS HISTÓRIAS DE PATERNIDADE



A princípio, O filho de Joseph (2016), dirigido por Eugène Green, parecia ser apenas mais uma história de um garoto em busca do pai. Nas cenas iniciais, por exemplo, o personagem Vincent depara-se com um café chamado “Pai e filho”. Em diferentes momentos, também, o jovem interroga à mãe acerca de quem seria seu pai.

Mas o que o filme se propõe a fazer é explorar as diferentes possibilidades de paternidade. Temos a mãe de Vincent, Marie, que assume sozinha a tarefa de criar o filho; o editor de livros Oscar, suposto pai biológico do garoto, que mantém uma relação distante com os outros filhos, o que, inclusive, dificulta uma aproximação entre eles; e Joseph, irmão de Oscar, que acolhe o jovem no momento mais inesperado.

A trama é, no fundo, uma releitura dos episódios bíblicos do sacrifício de Isaac, filho de Abraão – ilustrado na pintura de Caravaggio, cuja reprodução está na parede do quarto de Vincent – e da história de José, que assumiu o filho de Maria.

Os personagens Vincent, Oscar e Joseph apresentam pontos de vista diferentes sobre a paternidade. Para Vincent, o pai seria fundamental para retirá-lo da fase “estranha” que vivia. Oscar recusava qualquer possibilidade de ser pai, apesar dos três filhos legítimos. Joseph, contudo, mesmo tendo sido deserdado pelo pai, assume o papel sem qualquer dificuldade. É graças a Joseph que Vincent, típico adolescente rebelde, de expressões agressivas, falas fortes, principalmente nos diálogos com a mãe, e atitudes audaciosas vai, aos poucos, se mostrando mais calmo e extrovertido.

Em diversos momentos, os personagens olham diretamente para a câmera, na tentativa de estabelecer uma maior aproximação com o espectador. Os diálogos são, na sua maioria, secos e curtos e a interação entre os personagens é limitada, imprimindo um tom de distanciamento físico e emocional. A câmera, não raro, foca em espaços e objetos por longos segundos, com a ausência quase total de som. São essas estratégias de construção narrativa que fazem com que O filho de Joseph seja um filme original em comparação com outros de mesma temática.




Lecco França é professor universitário, pesquisador, curador e crítico de cinema. Doutor em Letras pelo Programa de Pós-graduação em Literatura e Cultura da Universidade Federal da Bahia.

A PATERNIDADE REVISITADA EM A GRANDE VIAGEM


Lecco França[1]

A grande viagem (Le grand voyage, 2004), dirigido pelo marroquino Ismaël Ferroukhi, conta a história de um pai extremamente religioso que quer ir à Meca levando seu filho mais jovem, um rapaz bem ocidentalizado. A primeira cena do filme, por exemplo, mostra Reda, um descendente de muçulmanos, que nasceu na França, andando de bicicleta, com o vento batendo no rosto, pelas alamedas arborizadas de Paris. A história tratará de relações familiares, especificamente entre esse jovem e seu pai.

Um dos conflitos entre os dois, apresentado logo no início, é porque o pai quer fazer o percurso de carro, mas o filho preferia ir de avião. Não entende por que o pai não vai de avião ao invés de ficar sentado num carro por 5 mil quilômetros. Reda (Nicolas Cazalé), então acompanha o pai de má vontade em sua peregrinação. Ele não segue a religião, representa uma nova geração de muçulmanos que quer se integrar a uma sociedade que, no fundo, o rejeita. Ambos falam línguas diferentes, mesmo quando se expressam no mesmo idioma, travando-se aquilo que se define como um diálogo de surdos. Apesar das diferenças, pai e filho vão aprender a se conhecer (e respeitar). 

A jornada de carro sai da França, atravessa toda a Europa até chegar ao oriente, passando pelo Marrocos até chegar à Arábia Saudita. O carro que leva pai e filho, de origem muçulmana, por estradas mais a leste, entre a Europa e a Ásia, em viagem também espiritual, passando também por desertos, em busca do auto-conhecimento - pai e filho se descobrem, aos poucos, durante o trajeto - e tendo como destino geográfico a cidade de Meca, porto obrigatório de partida ou de chegada para quem busca o divino, segundo o Islã. Assim, a viagem funciona como auto-conhecimento, uma viagem para dentro de si, quase espiritual. 

A própria ideia da viagem carrega uma dimensão metafórica - quando estão em lugar nenhum, na estrada que representa a vida, os personagens têm mais facilidade para se revelar, em todas as suas contradições. A casa seria um espaço muito reservado, interiorizado. A viagem abarca o mundo.

Nascido no Marrocos, em 1962, Ismaël Ferroukhi estreou escrevendo e dirigindo o curta L'Exposé (1992), prêmio Kodak no Festival de Cannes de 1993. Dirigiu filmes para a TV francesa, como Courttoujours: L'Inconnu (1996) e Petit Ben (2000), além de roteirizar Bonheur (1994) e Culpabilitézéro (1996). A grande viagem (2004) é o seu primeiro longa-metragem. Nesse filme, o diretor mostra também as diferenças culturais entre as tradições judaico-cristãs do Ocidente e o mundo islâmico. A começar pela pergunta emblemática que Reda escuta logo no começo da viagem, quando já aborrece o velho com sua mania de dirigir rápido e falar ao celular: “Você acredita em Alá?” O filho não responde - e essa “lacuna” se refletirá em muitas das ações atabalhoadas de Reda que põem em risco a travessia até Meca. Tipo beber a noite toda, sair com garotas e perder o dinheiro da volta. Coisa de ateu devasso.

Desde esse princípio fica evidente que o filme se calcará nesse choque de dois mundos. A religiosidade, a intuição, as filosofias arcaicas do velho contra a falta de crenças, o apego à modernidade e o pragmatismo do novo. A julgar por aquela cena inicial, que parecia um elogio da liberdade de Reda, era legítimo convir que a história tomaria o rumo da discussão, do diálogo. Não é isso que acontece. Isso significa que o pai se mostrará sempre certo e o filho, sempre equivocado.





[1] Lecco França é professor universitário, pesquisador, curador e crítico de cinema. Doutor em Letras pelo Programa de Pós-graduação em Literatura e Cultura da Universidade Federal da Bahia.

A PATERNIDADE REVISITADA EM PAISAGEM NA NEBLINA (1988)



Na primeira cena do filme Paisagem na neblina (1988), dirigido pelo cineasta grego Theodoros Angelopoulos, duas crianças surgem da escuridão da noite na cidade. “Você está com medo?”, Voula pergunta. “Não, não estou com medo”, responde Alexandro. Eles mais uma vez dirigem-se a uma estação ferroviária, mas hesitam em embarcar e o trem parte. As crianças retornam para casa e no escuro total do quarto de dormir Alexandro pede para que irmã conte certa história. Voula, mesmo cansada de repeti-la, segue em frente: “No princípio era a escuridão e depois houve a luz. E a luz se separou das trevas e a terra do mar e se formaram os rios, os lagos e as montanhas. E então as flores e as árvores, os animais, os pássaros”. Naquela noite quando Voula novamente contava aquela narrativa que o irmão menor não se cansava de ouvir, ela foi interrompida pelos ruídos que denunciavam a chegada da mãe – “essa história nunca vai acabar”, reclama. A mãe abre a porta do quarto e os dois fingem estar dormindo. Esta é a única vez que ela aparece, na verdade nem chegamos a vê-la.

Essa passagem é muito importante para o decorrer da narrativa, e, inclusive, será retomada depois, para, talvez, ajudar a explicar o porquê das duas crianças investirem em uma viagem arriscada a partir do nada. com roteiro de Tonino Guerra e Giorgos Arvanitis e música de Eleni Karanidrou, conta a história de dois irmãos, Voula, de 11 anos, e Alexandro, de cinco, que decidem fugir de casa em Atenas deixando a mãe para trás, sem dinheiro ou referências, em busca do pai desconhecido, que supostamente emigrou para a Alemanha.

Tal nada gira em torno de um pai ausente e desconhecido, e uma mãe que existe, mas é tão ausente que se não existisse. Neste aspecto, embora sem se prender a citações literais, o filme de Angelopoulos remete a Homero e Ésquilo (personagens das obras épicas Odisseia e Oréstia). Por exemplo, irmão e irmã, os jovens viajantes em desacordo com o mundo lembram Electra e Orestes em sua alienação em relação à mãe e sua adoração do pai ausente. Entretanto, invertendo a Oréstia, o crime da mãe é um assassinato mais figurativo do que literal – o tio sugere que a mãe era tão promíscua que nem sabe quem são os pais das crianças, o que significa inclusive que eles podem não ser filhos do mesmo pai. O mito também é sugerido quando as crianças encontram alguém chamado Orestes – personagem que também integrou a trupe de artistas do filme A Viagem dos Comediantes (1975), também dirigido por Angelopoulos.

Depois de algumas tentativas seguidas de irem à estação de trem e embarcarem no transporte, sem sucesso, as crianças finalmente conseguem atingir a esse propósito. Entretanto, logo são descobertas porque não compraram as passagens. Deixadas aos cuidados de um funcionário de outra estação, elas acabam sendo levadas a um tio. Mas ele recusa-se a ficar com elas e explica ao acompanhante que a história delas é fruto da omissão da mãe, que não contou a eles que não existe um pai. Nesse momento Voula escuta a conversa do tio e não aceita sua versão dos fatos. Eis, então, as primeiras decepções: a rejeição de um tio que não aceita assumir a responsabilidade pelos sobrinhos e a dúvida em relação à existência do pai.

Em suas andanças, Voula e Alexandro encontram Orestes, jovem ator integrante de uma trupe teatral, que estava na estrada com seu ônibus cheio de figurinos de peças de teatro. Ele oferece carona para as crianças, que inicialmente demonstram-se relutantes em aceitar, mas o rapaz insiste, ressaltando que “não comia crianças”. Esse contato entre os três configura-se de fundamental importância para as sequências do filme, pois eles criam uma relação de afinidade, o que os torna “pessoas especiais”. Pode-se deduzir que Orestes liga-se às duas crianças por sua própria busca, como ficará mais evidente posteriormente, quando ele afasta-se da trupe teatral e acompanha os irmãos em parte de suas jornadas.

É evidente que cada um dos irmãos estabelecerá uma relação diferente com Orestes. Para Alexandro, Orestes seria a única figura masculina, dentre as que ele encontra durante seu percurso, que estaria mais próxima do ideal de “pai”, pois nele encontra carinho, atenção e segurança. Voula, por outro lado, constrói em sua mente um imaginário oposto ao do irmão na sua relação com Orestes. Ela, ao poucos, percebe-se apaixonada por ele, mas o rapaz deixará claro que aquele sentimento não será correspondido (o filme, sutilmente, esclarece o motivo: Orestes era homossexual). Isso representa mais uma decepção para a garota, depois, inclusive, de ter tido outras experiências anteriores extremamente traumatizantes.

Durante o filme, acompanhamos a narração de várias cartas para o pai feitas pelas crianças. Mas todas elas são imaginárias (como poderiam enviá-las se nada sabem sobre endereço do pai?). O caráter imaginário das cartas fica evidente quando Voula avisa ao pai que ele pode mandar uma resposta as cartas deles através do som do trem. Nessas cartas, inclusive, ela chega a se questionar sobre a continuidade daquela jornada, diante de tantas dificuldades, e demonstrar dúvidas sobre o sucesso dela. O desejo de desistir perpassa sua mente em alguns momentos. A partir de certo ponto, Voula não sonha mais com as cartas, a menina agora lida com elas mesmo estando acordada (mais especificamente, essa passagem teria ocorrido quando Voula continuou a narrar uma de suas cartas ao pai mesmo acordada).

Finalmente, quando as crianças chegam à fronteira durante a noite, percebem que ainda terão de atravessar um rio e se esconder dos soldados de guarda. Elas sobem num pequeno barco e se deixam levar pela correnteza, sumindo na escuridão. Como havia feito no começo do filme, Voula pergunta ao irmão: “Você está com medo?” “Não, eu não estou com medo”, responde o menino. De repente, ouve-se um tiro. Na cena seguinte, totalmente tomada pela névoa branca em alto contraste com a escuridão, Alexandro diz: “Acorde, já amanheceu. Estamos na Alemanha”. Voula confessa que está com medo. “Não tenha medo”, retruca Alexandro, “vou te contar uma estória”. 

Enquanto isso, a névoa vai dando lugar à imagem dele. Alexandro começa, “no princípio era a escuridão”. Ele repete a frase e levanta a mão como se estivesse acenando ou limpando uma janela para ver melhor. “E então houve a luz”. Começamos a perceber uma árvore através da névoa à distância. Alexandro e Voula correm na direção dela de mãos dadas. Na imagem final eles estão abraçados a ela. O destino dos irmãos não é concreto. Eles sobreviveram ao tiro no escuro e chegaram à Alemanha? Morreram e chegaram ao paraíso? Ou eles entraram no pedaço de filme que Orestes deu para Alexandro que trazia a imagem da árvore que ele disse que estava atrás da neblina? Angelopoulos construiu um final aberto. 




Lecco França é professor universitário, pesquisador, curador e crítico de cinema. Doutor em Letras pelo Programa de Pós-graduação em Literatura e Cultura da Universidade Federal da Bahia.